• Roberta Calábria

Parto Humanizado: que bicho é esse?

Atualizado: 5 de Dez de 2018

A visão mais difundida é que o parto humanizado é o parto natural, na banheira, em casa, no escuro, com música ao fundo. Coisa de hippie. Coisa de corajosa – ou coisa de maluca. Não é nada disso. Ou não é só isso. rs



Annaline e Márcio receberam Chico num parto natural hospitalar com equipe particular, num formato que representa o que se entende comumente como parto humanizado. Fotografia: Érica Soares





Há pouco menos de uma década a gente aqui do Rio de Janeiro vê pipocar um termo muito especial: parto humanizado. Não que ele seja novidade, mas não faz muito tempo que vem sendo utilizado de forma mais abrangente e frequente. Isso é maravilhoso! Sinal de que a cada dia mais mulheres se interessam e se beneficiam com experiências de parto mais seguras e gratificantes. Mas também pode causar uma certa confusão a respeito do que é a humanização do nascimento. A visão mais difundida é que o parto humanizado é o parto natural, na banheira, em casa, no escuro, com música ao fundo. Coisa de hippie. Coisa de corajosa – ou coisa de maluca. Não é nada disso. Ou não é só isso. Rs


Mas afnal, o que é parto humanizado?


Logo que o termo começou a aparecer mais, alcançar mídias mais expressivas, novelas, filmes e documentários, era bastante comum – e ainda é -, ouvir o comentário: “mas se é parto de humano é humanizado. Todo parto é humanizado”. Por isso primeiro a gente tem que entender o que significa ‘humanizar’. Humanizar é de fato compreender que cada pessoa é uma pessoa, para quem é preciso olhar de maneira específica, pois cada uma faz parte de um contexto, uma história e um apanhado de desejos. Humanizar é reconhecer que quem está diante de nossos olhos é uma pessoa única, fruto de um conjunto de acontecimentos e que tem direito a fazer escolhas baseadas em informação de qualidade e transmitida de forma compreensível.



O pré natal também deve ser humanizado. Na foto, Roma tem uma consulta domiciliar com a parteira Drielle.



Especificamente no âmbito da saúde, podemos ler no glossário do Programa HumanizaSUS, que “O compromisso ético-estético- político da humanização do SUS se assenta nos valores de autonomia e protagonismo dos sujeitos, de corresponsabilidade entre eles, de solidariedade dos vínculos estabelecidos, dos direitos dos usuários e da participação coletiva no processo de gestão.” E são esses valores de autonomia, protagonismo e corresponsabilidade que vamos usar pra falar de Parto Humanizado.



Mayra teve um parto natural após cesárea. Na maternidade Maria Amélia, ao lado do papai Leo, pode matar a fome ainda na sala de parto, minutinhos após receber seu filhote.




O parto humanizado é aquele no qual a mulher tem acesso a informação de qualidade, preferencialmente através da medicina baseada em evidências, passada a ela de uma maneira nítida, compreensível e que englobe riscos e benefícios a respeito de tudo o que envolve o cenário do nascimento.



Laura optou por um parto domiciliar, com a atenção cuidadosa das parteiras Vitória e Bruna, da equipe Sankofa




O parto humanizado não é uma conduta de parto, apenas. É um objetivo alcançável através de educação perinatal, na qual as mulheres aprendem sobre o funcionamento dos seus corpos, sobre a fisiologia do nascimento, sobre as intervenções existentes, suas indicações, contraindicações e consequências. É um parto no qual nenhum interesse de mercado ou de sistema é maior do que o interesse pelo bem estar da mulher e da criança. É o parto no qual as escolhas são da mulher e ela tem CORRESPONSABILIDADE sobre as mesmas, porque A MULHER É A PROTAGONISTA DO PARTO. No qual o tempo do nascimento é respeitado e no qual as intervenções só são utilizadas quando de fato necessárias.


No parto humanizado se compreende que o nascimento é um evento fisiológico absolutamente seguro em mais de 80% dos casos, e que as intervenções existem para facilitar os desfechos positivos para os que por algum motivo não possam acontecer de forma natural, sendo potencialmente danosas quando utilizadas sem indicação real. Nele, todas as condutas são discutidas e a mulher tem acesso a atenção de mais alto nível à disposição, com AUTONOMIA PARA TOMAR AS DECISÕES QUE ACHAR MAIS ADEQUADAS, partindo sempre de informações confiáveis. No parto humanizado, a mulher e suas escolhas são respeitadas e acolhidas, sem julgamentos, achismos e preconceitos.




Taís usou de muita informação e empoderamento para consgeuir um feito raro: um parto natural humanizado, hospitalar e com equipe do plano de saúde. Ao lado do marido Vítor, mostrou que o caminho está, sim, melhorando!


Infelizmente o cenário médico no nosso país não é dos mais favoráveis, e por vários motivos que vão desde a falta de incentivo à atualização profissional, a baixa remuneração oferecida em alguns casos, a necessidade de suprir o ritmo de produtividade do capital e, no limite, o descaso; a maioria das mulheres não tem a opção de fazer escolhas verdadeiramente informadas. Boa parte sequer tem direito a fazer qualquer escolha. Além de estarem diante de práticas pouco atualizadas e por vezes violentas. Sim, a violência obstétrica e humanização são os pólos opostos da atenção ao nascimento. É necessária e urgente uma mudança de paradigma por parte de profissionais, para que devolvam o protagonismo do parto para as mulheres. Nem sempre será possível, a algumas mulheres a humanização será negada, principalmente se elas forem negras, pobres ou vulneráveis em algum outro âmbito. Poder escolher é um privilégio e nós que podemos, devemos contribuir para que o parto humanizado seja um direito de todas.



Gael chegou cheio de amor e respeito, para os braços da mamãe Duda, num parto natural pelo SUS, na Maternidade Maria Amélia. Na foto, papai Lucas corta o cordão, auxiliado pela enfermeira Jemima.

MAS COMO CONSEGUIR UM PARTO HUMANIZADO?


Não tem outra: a informação é o primeiro caminho!


O primeiro passo é você se dar conta da experiência positiva, tranformadora e fortalecedora que você pode ter, através de um parto humanizado. No nosso sistema, não basta "querer querer ter um parto", é preciso de fato acreditar que é a melhor jornada.


Não tenha medo de mudar de profissional quantas vezes forem necessárias. Uma ou um obstetra legal, fofinho e atencioso, nem sempre vai ser a pessoa que vai ouvir e respeitar suas escolhas. Ser acompanhada por alguém só porque essa pessoa "acompanhou todas as mulheres da família" não é garantia de nada. Pelo contrário, costuma colocar as mulheres em uma situação de dependência e subserviência. Aqui tem um texto com ferramentas para saber se a/o obstetra é ou não a favor do parto.


Converse, converse, converse e converse! Pergunte, elabore um plano de parto, discuta ele com sua equipe de prá-natal ou profissional que acompanhará o parto, caso você saiba de antemão quem será. Não saia do consultório com dúvidas.


Lembre-se de que é uma relação de clientela também, e você tem direito a ter todas as suas questões respondidas. E estas respostas não podem ser do tipo "deixe que eu me preocupo com isso", "na hora a gente vê" ou "quem sabe melhor sou eu".


Busque por evidências que corroborem as práticas sugeridas.


Passe um tempinho na sala de espera, caso haja, e escute as histórias das mulheres que retornam para acompanhamento após o parto.


Não se satisfaça com pouco!

A informação é o primeiro caminho, sim, mas a humanização tem que alcançar profissionais, instituições e protocolos. Não é justo que as mulheres precisem investir tanto tempo de suas gestações na busca por parir com respeito, dignidade e protagonismo. Devemos sempre nos perguntar a quem interessa que as mulheres, em especial as mulheres mães, estejam sempre ocupando posições de desinformação, obediência e silenciamento. Um parto que acontece respeitando os desejos e a autonomia da mulher é um evento extremamente empoderador, que modifica, fortalece e engrandece as mulheres, e TODAS nós temos direito a esta experiência. O parto é seu, o corpo é seu, a cria é sua, e você merece ser ouvida, respeitada e amparada.



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