• Roberta Calábria

ser pai: sobre o masculino e a corresponsabilidade.





Eu tenho o privilégio de, de vez em quando, poder testemunhar acontecimentos e debates muito intensos sobre questões que são importantes para minha vida também. É um entrelaçamento entre viver estas questões e estar ao lado de outras pessoas enquanto elas as vivenciam. É realmente fantástico!


Hoje foi um desses dias, dia dos pais. Um dia que diz respeito a todo mundo, pois não há, em nossa sociedade, que não seja atravessada pela figura do pai. Talvez não seu próprio pai, pois a realidade de mais de 5 milhões de crianças brasileiras é não ter sequer o nome do pai na certidão de nascimento; mas a figura desse pai hipotéitco, do pai imaginário e tantas vezes do pai perfeito.


Em tempos de lugar de fala, é difícil decidir escrever sobre paternidade. Foi difícil a decisão de abraçar mediar uma roda de conversas hoje, sobre este tema.

Sempre pareceu cansaço extra ter que refletir sobre as coisas que os homens deveriam estar refletindo por si. Sempre foi um lugar dolorido também. Não é difícil, entretanto, pensar que, salvo pouquíssimas mulheres que optam pela chamada “produção independente” - e ainda assim não creio ser possível desvencilhar-se da dicotomia pai/mãe, a paternidade é um debate importantíssimo para nós, mulheres.


Então dá licença, que não sou pai mas vou falar de paternidade. Principalmente por perceber que há uma demanda crescente por pautarmos este assunto, e por acreditar que as mulheres e homens que vejo nesta busca são pessoas engajadas em uma nova forma de estar no mundo.


Me parece possível dizer que estamos diante de uma nova patermidade porque estamos diante de uma nova masculinidade. O pai presente, que cumpre seu papel de corresponsável por sua criança, faz parte de nosso imaginário. Existiram “bons” pais antes destes que se apresentam hoje e aparecem, apesar de ainda saltarem como oposição à memória que a maior parte de nós tem de nossos pais. Não eram, ou são, a maioria, mas já estão por aí há tempos.


A meu ver, a diferença é que hoje ser um “bom pai” é ser também um “bom homem”. É um papel social que não cabe mais só em “não basta ser pai, tem que participar”. Tem que participar, mas tem que participar sem reproduzir uma série de opressões que fazem com que a maternidade seja tão pesada para nós, mulheres. Não temos como não refletir que na outra ponta deste novelo está uma mãe a “padecer no paraíso”. Para além de estabelecer uma relação positiva com suas crianças, há de se pensar quais são os outros tipos de relação que os homens estão desenvolvendo com as mães dos seus filhos, suas prórpias mães, seus pais e, em outros níveis, com as pessoas que os circulam. Toda a importância que o discurso atual dá à desconstrução dos papéis sociais normativos é amplificada pela tarefa de educar novas pessoas.


A corresponsabilidade não cabe mais em trocar fralda, colocar pra arrotar e cuidar da casa (e ó, ainda assim a maioria não faz nem isso). Se trata de quebrar uma carcaça gigante, forjada na toxidez da masculinidade que constrói os homens. É lidar com a dificuldade de acessar, identificar e verbalizar seus sentimentos, com a exposição precoce e repetitiva à violência e a um padrão de sexualidade objetificante; é começar a dar conta de tudo que diz respeito a si e à criança que pôs no mundo. É preciso se responsabilizar por as relações entre pais e crias reverberarem imensamente na maternidade. O impacto de como um homem exerce sua paternidade sobre a mulher é muito maior do que o contrário – e esse é um debate complexo sobre equidade.


Para os homens que estão de fato se esforçando para isso, fica meu apoio e desejo de que, com essas palavras, vocês se sintam fortalecidos. Para os demais, espero que reflitam sobre seu papel, com honestidade e disposição para enxergar os benefícios dessa decisão para todas as pessoas envolvidas.


Confusão, ambivalência, medo, culpa – esses sentimentos podem fazer parte da construção da paternidade. O contato com uma nova forma de amor também. É grandioso querer que vocês, homens, construam sobre tão poucos alicerces esta nova masculinidade, mas não é querer demais, não é pedir demais, é apenas apontar um caminho de potência e autoconhecimento. E por que estamos aqui afinal, não é mesmo, abiguinhos?


Para os pais: a gente se dá nos encontros. Uma criança exige poucas, mas gigantescas coisas, e me parece que a principal delas é presença. Não aquela presença de estar ali, mas a presença de se despojar inteiramente do que os constrói e se deixar ocupar pela generosidade deste pedido: “fica aqui”. Se deixar estar, corresponder, comunicar. Não existe fórmula mágica – e aprender a trocar fralda, dar comida e botar pra dormir não é tão difícil quanto parece. Difícil mesmo é abrir mão de aspectos de quem se é, em prol de quem ainda está só começando a se tornar alguém. Encarar ser quem nós somos, na complexidade de nossas dores e delícias, por assim dizer, diante desses perspicazes seres que são as nossas crianças.


Para casais heteronormativos: escutem-se. De verdade. Reconhecer nossos limites é muito importante. Mas os limites não ficam nem um pouco nítidos diante da intensidade da parentalidade (alô, privação de sono!!!) e da necessidade das pessoas de se reconstruírem cotidianamente fora dos papéis hegemônicos da parentalidade que nos é exigida. Encontrem autenticidade e correspondência entre o que são, o que desejam e o que podem ser. Estejam juntos no bote, encarem o caos lado a lado. Homens, reconheçam a força e a importância das experiências fisiológicas – além de todas as outras – pelas quais suas companheiras estão passando. Mulheres, acreditem, eles são plenamente capazes. A chegada de uma criança é um terremoto de proporções avassaladoras – não é a toa que o maior índice de divórcios atualmente acontece nos dois primeiros anos após o nascimento. Como é possível interferir para buscar o melhor lugar para vocês estarem quando estas placas tectônicas assentarem? O pai e a mãe perfeitos NÃO estão logo ali, esperando depois da esquina. Não são um objetivo alcançável.


O tempo vai passar, algumas coisas vão ficar mais fáceis, outras impensavelmente difíceis. Alguns dias vão fluir com amor e alegria, outros terão a tarefa de trazer à tona nossas dores mais escondidas. Entretanto não há linha de chegada. Nós nunca alcançaremos a completude. Não há um dia após o qual tudo e todas as coisas ficarão bem. Deixo a singela reflexão de Guimarães Rosa: “Felicidade se acha é em horinhas de descuido” - estejam por perto para presenciar.


Eu sei que é uma bolha. Mas dá um alento enorme no coração ver este tanto de criança que tem pais disputando uma paternidade positiva, presente, ativa e consciente. Manos, sigam firmes na construção dessa nova masculinidade. Tá dando certo. Erros são cometidos, o ideal está bem distante, o caminho é longo e as fronteiras são maleáveis demais, mas está dando certo.


Feliz dia para quem é de corresponsabilidade!


Até breve,

Roberta Calábria

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